Na contramão do que acontece em bairros onde traficantes trocam chumbo com a polícia ou com quadrilhas rivais, tem caído o número de imóveis à venda na vizinhança de favelas guarnecidas por milícias. São dois os fenômenos que provocam isso: o tráfico de drogas é origem de um tipo de violência que aterroriza a classe média e as milícias representam para esse mesmo público garantia de que os arredores das favelas estarão livres de roubos e assaltos.
Vem sendo assim no Itanhangá, em Gardênia Azul, nos condomínios de Vargem Grande e até no perímetro das favelas de ocupação recente pelas milícias. Nada indica que milicianos sejam menos criminosos ou violentos do que traficantes. Mas entre os vizinhos consolidou-se a idéia segundo a qual essa violência não ultrapassa os limites da favela senão para punir deslizes e intrusos.
Justamente o contrário do que acaba de ocorrer no Leme, onde uma semana de tiroteios na favela Chapéu Mangueira acabam de incluir o bairro na extensa lista de áreas da cidade condenadas à degradação acelerada. Trechos de Ipanema, Copacabana, Tijuca, Catete, Gávea, São Conrado, Méier, Alto da Boa Vista, entre diversos outros, há alguns anos encheram os olhos da indústria imobiliária. Hoje são apenas micos-pretos que roem o bolso da classe média.
Favelas como Rocinha, Mangueira, Caju, Pavão-Pavãozinho e centenas de outras transbordaram ou estenderam com tal vigor os reflexos da baderna urbana para áreas da cidade formal que já não há possibilidade de restabelecer a ordem prevista em posturas municipais. Principalmente porque, no Brasil, o poder público trata a favelização das cidades – já não apenas das grandes – como resultado inexorável do desenvolvimento.
No Rio, não fosse a maioria das favelas ninho de traficantes, talvez um prefeito com algum grau de comprometimento em relação à sociedade pudesse melhorar esse quadro. Não tem sido, porém, o caso das administrações nas últimas décadas. Sob a prefeitura de Luiz Paulo Conde, por exemplo, o secretário de urbanismo defendia tese muito ao gosto de quem administra com os olhos na política: as classes de menor renda devem construir suas casas onde lhes aprouver. Ao poder público cabe levar transporte, calçamento, luz e saneamento básico.
Claro que essa pérola do planejamento urbano também traduz estratégia muito mais barata e cômoda do que construir casas e vendê-las a essas populações. Na verdade, vender significa cobrar, verbo que não se conjuga nesses bolsões de votos que a política brasileira acostumou-se a apascentar. Esse é o caminho que trouxe a sociedade à discussão atual. Depois de engolir a favelização como alteração consumada no cenário urbano tenta-se limitar o crescimento apertando o perímetro e achatando o gabarito.
Fala-se disso a sério, como se o prefeito não tivesse autorizado com todas as letras a permanência de um prédio de 11 andares (sem elevador e com escadas precárias e estreitas) na Rocinha há pouco mais de um ano. Em Rio das Pedras, de frente para a avenida Engenheiro Souza Filho, neste momento, está em fase de acabamento uma construção de cinco andares, enfiada favela adentro. Tem quase 100 quitinetes. Como o edifício da Rocinha ou as milhares de cabeças-de-porco em construção nas favelas, são fruto da mais deslavada especulação imobiliária.
Dá para falar de ordem urbana numa cidade em que a prefeitura incentiva a baderna nas favelas e o prefeito considera quem reclama criminoso? Qual foi a providência séria de qualquer governo (federal, estadual ou municipal) nos últimos anos para urbanizar de fato as favelas? Não vale a cascata do Favela Bairro, que enganou até a arquiteta que o conduziu. Seria a titulação de terras iniciada por Olívio Dutra, o ministro das Cidades, no primeiro governo Lula?
Menos, minha gente, menos. Aquilo foi só maneira fácil de fazer o pobre acreditar que era dono de um pedaço de chão recortado entre barracos. Muito mais barato do que construir-lhe uma casa era enfiar-lhe nas mãos um papel que, entre levantamentos, cadastros e cartórios custava 600 pratas. E ainda poderia render votos Nem isso deu certo. Houve muito barulho e solenidades na favela do Caju, mas o programa acabou ficando pelo caminho. Tudo cascata que já consumiu quilômetros de papel e não rendeu um passo na direção de uma solução.
Em 1999, há oito anos, portanto, o governo federal já estava horrorizado com a constatação de que entre 1940 e 1996 – pouco mais de 50 anos – o número de habitantes da área urbana havia crescido 10 vezes no país. Naquela época, 125 milhões de pessoas viviam nas cidades. Era tão assustador, considerando-se o escasso crescimento dos índices de urbanização, que foi criado o Programa Reestruturação de Regiões Metropolitanas. Com ele ia-se enfiar 725,5 milhões de reais para revitalizar a infra-estrutura das capitais. Hoje, ganha um barraco lá pertinho do céu quem tenha voltado a ouvir falar nessa grana ou em algo que tenha sido feito com ela.
Expansão de favelas, violência, policiamento precário, camelôs nas principais calçadas da cidade, transporte pirata – algum desses temas soa como novidade ao ouvido do querido leitor?
Nem poderia. Desde a campanha de 2 000 o prefeito Cesar Maia promete solução para uns e ajuda para dar fim em outros. Não ofereceu nem uma coisa nem a outra. Bem ao contrário: os 10 anos que já soma na cadeira marcam período de forte crescimento dos bolsões de votos incrustados nas favelas, além de complacência com camelôs e modalidades variadas de transporte pirata. Tudo o que fez pela segurança do contribuinte foi apoiar a tomada de favelas pelas milícias.
Assim, se o Chapéu Mangueira derramou ilegalidade e violência sobre a área formal do Leme, pouco há a fazer até que o poder público descubra a necessidade de criar um plano de segurança digno do nome. Algo para o qual só o Disque-denúncia não é suficiente. O que breve vai acontecer no Leme, já virou rotina para os moradores da rua Sacopã, na Lagoa. Quando saem pela manhã, para levar os filhos na escola, não raro cruzam com os inocentes rapazes do tráfico e suas armas barulhentas. Ou como os amigos acham que toca sua vida a gente honesta da Vila Cruzeiro, que há mais de um mês não consegue levar os filhos à escola?
Nos últimos meses, a discussão que ganha volume trata da intervenção das Forças Armadas no combate ao crime urbano. Virou moda abanar as brasas do sucesso da missão brasileira a serviço da ONU no Haiti. O Haiti é aqui, dizem algumas das nossas melhores cabeças. É, vai ver é, mesmo ou, pelo menos, tudo aponta para isso. Mas vamos deixar claro o seguinte: no país do dólar na cueca, dos dossiês negociados em quarto de hotel, dos partidos e empreiteiros entregues à farra do dinheiro público e da Justiça com apenas um dos olhos vendado, a experiência recente mostra que não é boa idéia chamar a farda para resolver problemas civis. Por que deixariam os quartéis para combater só um tipo de crime? É bom não esquecer das vivandeiras, bolindo com os granadeiros. Cuidado!
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