sábado, 16 de junho de 2007

Para carregar o autoclismo

Por Gil Ferreira, colaborador

Com que então, vai sair o acordo ortográfico entre países lusófonos.

Lembro-me de quando foi lançado, há quinze anos, pelo afamado Sr José Aparecido, - "os três males do Brasil foram Tancredo ter morrido, Sarney ter assumido e José Aparecido" - ex-Governador do DF, ex-Secretário de Jânio, etc, etc, etc.

Quem, além dele, lucrará com esse acordo? Talvez as editoras de livros de Português ! Mas pelo visto, nós é que vamos adotar regras lusitanas, como o emprego do acento agudo para distinguir, em certos verbos, o pretérito perfeito do presente do Indicativo - "aguardámos". É de chorar !

Como diria o Conselheiro Acácio, as linguagens falada e escrita constituem a expressão do pensamento. E as estruturas de pensamento de cada um dos povos lusófono são, evidentemente, diferentes entre si.

Experimente perguntar em Lisboa, a um transeunte nativo, se ele sabe onde fica a rua tal. A resposta inevitável será - 'Lógico que sei, eu moro aqui". Mas não será capaz de compreender que a pergunta real do brasileiro é - "Sabe me dizer onde fica a rua tal ?".

Ou então, peça a um sapateiro português para trocar os saltos de seus sapatos, que se desgastaram. Ele estranhará, mas fará o que sabe - mudará o velho salto do pé direito para o esquerdo, e vice-versa. Porque para ele, "trocar" nada tem a ver com "substituir".

E se a estrutura do pensamento é diversa, por que mudar sua expressão escrita? (A falada, então, nem pensar !).

Lembro-me das duas oportunidades em que residi e estudei nos EUA e na Inglaterra, e me deparei com as grandes diferenças idiomáticas entre ambos, que provocavam bem-humoradas discussões, ao longo das quais se constatava ser impensável qualquer "acordo" para uniformizar a fala e a escrita dos anglófonos - cada um na sua ! Idem quanto ao Espanhol - alguém tem notícia de acordos para unificar a ortografia castelhana nas dúzias de países que se expressam na língua de Cervantes ?

Mas continuamos a ser "macaquitos" - vamos agora adotar padrões lisboetas, enquanto os patrícios jamais se expressarão como cariocas, ou paulistas, ou gaúchos. E dentro em pouco, em nossos banheiros públicos, leremos o seguinte aviso - "favor carregar o autoclismo do retrete".

Não entendeu ? Pois é - aperte a válvula para dar descarga na privada - precisamente o que deveríamos fazer com esse ridículo (des)acordo.


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